
Responsável pela divulgação de milhares de obras de banda desenhada e de cinema de animação junto de sucessivas gerações de pessoas, Vasco Granja faleceu ontem de madrugada, na sua residência, em Cascais. Contava 83 anos.
A televisão tornou o rosto de Vasco Granja familiar para milhões de pessoas. No entanto, apesar de ter conduzido na RTP mais de um milhar de programas dedicado à animação, o seu interesse por esta arte surgiu muito tempo antes, quando lia as revistas "O Mosquito" e "Tic-Tac" e passava horas nos cineclubes.
A paixão foi alimentada pelo facto de ter acumulado vários empregos ligados à área: trabalhou numa casa de fotografia, numa tabacaria ou Armazéns do Chiado e, finalmente, na livraria Bertrand, onde permaneceu quase trinta anos e dirigiu a revista "Tintin".
Apesar da histórica ligação à RTP, na qual colaborou entre 1974 e 1990, a verdade é que a maioria destes programas, intitulados "Cinema de animação", terá sido apagada dos arquivos da televisão pública.
Parte do sucesso do programa deveu-se ao esforço de Vasco Granja em mostrar a animação que havia para lá das portas do castelo de Walt Disney. Foi desse modo que deu a conhecer personagens como Bugs Bunny e a Pantera Cor-de-Rosa, mas também histórias de bonecos de plasticina, sombras chinesas ou com ursos de peluche animados, a maioria das quais provenientes da então pujante cinematografia de animação do Leste da Europa.
A sua faceta de divulgador foi ainda mais notória na banda desenhada, devendo-se ao seu esforço continuado a publicação de "Corto Maltese", de Hugo Pratt, pela Bertrand.
Cinéfilo apaixonado e militante do Partido Comunista, Vasco Granja foi detido duas vezes pela PIDE por organizar sessões de cinema, muitas delas com filmes que ia buscar por conta própria às embaixadas em Lisboa.
Da sua actividade consta também o papel determinante no arranque do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, que o homenageou com um troféu de honra em 1996, bem como a frequência dos festivais de BD no estrangeiro ou a organização dos ciclos de cinema de animação, dois dos quais para os detidos na Cadeia do Linhó.
Da minha parte, só tenho a agradecer-lhe, ter-me mostrado a beleza que existe na diversidade, as diferentes correntes estéticas, os diferentes sons, e que só pela diferença se avança.
Espero que esteja em amena cavaqueira, com os seus autores preferidos, onde quer que esteja.

